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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

- Jessica, o que foi? Você parece triste.

 É incrível como as pessoas que tem pouca convivência com a gente conseguem acertar nosso pensamento melhor do que as que estão mais “próximas” de nós. Fiquei surpresa com a pergunta e naquele lugar eu tinha que disfarçar tão bem o que sentia que na hora até achei a pergunta um pouco boba. Em frações de segundos antes de responder pensei em tudo que era possível de falar, avaliei bem minha reposta.
Pensei na resposta mais verdadeira que poderia dar, em tudo que eu realmente estava sentindo. Em dois segundos, passou tudo pela mente:
- É eu estou triste mesmo, sabe? Eu queria me afastar de uma pessoa, pois ela não estava me fazendo bem, mas ela tá com um problema enorme e esse meu senso de solidariedade não deixa ninguém na mão. Nem meus inimigos mais íntimos. Dia desses, porem, eu li uma frase que dizia mais ou menos assim: “inimigos são amigos que se esqueceram de te amar.” E é verdade, ele se esqueceu de me amar. Mas tá tudo bem, sabe? Eu tô tranquila, vou ajudar essa pessoa. Vou dar o melhor de mim e vou seguir o meu caminho. Eu sei que parece que eu tô mentindo. Não sei se você sabe, mas eu já disse isso pra todo mundo milhões de vezes, chego até a ser irritante com esse assunto pertinente, que não acaba nunca. Mas fazer o que? Eu preciso conversar com alguém sobre isso. Se você puder me ajudar e me ouvir, eu agradeço, pois ninguém mais aguenta me ouvir. Me sinto sozinha, parece que as pessoas só correm atrás de mim pra pedir ajuda e quando eu preciso de um conselho todos somem. Pois é, esse é mais um motivo dessa tristeza toda. As pessoas que eu achava que eram minhas amigas, simplesmente sumiram. Depois de tudo que eu fiz como elas puderam? Eu não deveria esperar nada das pessoas, mas a gente sempre espera não tem jeito. Quem dizer que não, tá mentindo. Pelo das pessoas que a gente ama a gente sempre espera alguma coisa em troca, nem que seja um muito obrigada. Você acha que eu deveria ajudá-lo ou fazer de conta que não tá acontecendo nada? Eu não sei o que fazer. as pessoas não me dão uma resposta objetiva. Eu não aguento mais pensar sobre isso. Vez por outra eu tomo coragem e digo que não posso ajudar, pela minha saúde física e mental. Invento mil motivos pra dizer um não, depois fico me sentindo mal, sei lá. Parece que eu vivo pra ajudar as pessoas. Ai, eu te pergunto: quem me ajuda? Quem cuida de mim? Quem chega pra me dizer que tudo vai ficar bem? Ninguém, essa pessoa nunca chega. Eu tenho que ser forte e ajudar a mim mesma. Me conformo pensando que sou autossuficiente. Cuido de mim e não preciso de ninguém, mas não é bem assim. Nós não nascemos para ser solitários, morreríamos se tivéssemos que viver sozinho, que aguentar tudo sozinhos. Eu me sinto meio morta, sabe? Alguém precisa cuidar de mim. Mas fala de você. Como você tá? Seu namorado tá bem? Vocês ainda estão juntos?
Durante os dois segundos que pensei, só consegui responder:
- É impressão sua, eu estou bem.

- Jessica Pimentel.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Crônicas de ônibus

          Eu voltava pra casa pensando que eu deveria crescer, procurar outros caminhos, deixar o medo de lado, me tornar mais independente. Quando pensava em como fazer isso, uma menina de mais ou menos cinco anos entra acompanhada de sua mãe. Ela estava com o braço engessado. Tinha carinha de sapeca e sorria pra quem olhasse. Sentou-se no colo da mãe.

E logo um senhor sentou-se ao seu lado. Perguntou a menina como conseguiu aquele gesso. Ela desatenta, não respondeu. Coube a mãe disser o que tinha acontecido. A menina havia caído. O senhor então, disse que ela tinha mesmo carinha de danada.

                Começou a contar de sua filha, Isabele, que foi adotada. Com a possibilidade de ouvir uma boa historia, a menina esqueceu tudo que passava lá fora e atentou-se para o rosto do homem. Ele contou que quando sua filha ainda era pequena a mãe contou à menina que ela tinha vindo de outra família e junto com ela tinha vindo uma carta que dizia: “Isabele é um tesouro, cuidem bem dela.” A menina cruzou os braços e exclamou: Não sou um tesouro! A mãe foi explicar a garotinha o que era um tesouro, até que ela aceitasse que tesouro era uma coisa boa.

                - Como é seu nome? - Perguntou o senhor a menina que o olhava atentamente. Criança adora histórias, principalmente se contadas por senhores com cara de vovô.

                - Nayara.

                A conversa parecia ter parado ali, mas com a mesma simpatia de sempre, o senhor começou a falar do tempo. Disse que iria passar o dia chovendo. A mulher disse que estava agradável o dia. A menina olhava atentamente para o mundo fora da janela do ônibus. A cidade está em obras, passando por muitas mudanças. Os grandes olhos da menina se enchiam cada vez que passava por aquelas máquinas enormes e fortes. Parecia tudo tão incrível, como só as crianças conseguem achar.

                Era o tempo nublado, o ônibus lotado, engarrafamento por toda parte, quase 6h da tarde e mesmo assim ela sorria e achava tudo encantador. E eu só queria que tudo que tinha ido fazer tivesse dado certo, que os caminhos mudassem pra que eu pudesse, de novo, achar tudo incrível e não me importar com o tempo.

                - Com licença, vou descer na próxima.



- Jessica

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Falta muito pra acabar?

- Mãe, falta quanto tempo para o ano acabar?
- Uns 7 meses. Seis meses e meio, filha. Por quê?
- Então daqui a seis meses e meio vou ficar de férias da escola?
- Antes disso, filha.
- Ah, só faltam seis meses e meio.
 E ainda com aquela cara de boba por SÓ faltar seis meses e meio a menina ficou olhando para fora da janela do ônibus. Imagino que estava pensando que seis meses demoram muito, quase uma eternidade.
Semana passada também estava pensando nisso quando voltava para casa. Era sexta-feira, quase 8 horas da noite e eu agradecia a Deus por estar chegando em casa quando vi alguns meninos brincando na rua de futebol e meninas sentadas conversando e rindo. Aquelas panelinhas que existem quando somos crianças. Eu lembrava que chegar no fim de semana era difícil, que ficávamos dias sem ter o que fazer, que o tempo sobrava pra tudo. eu adorava a sexta porque era um dia que eu tinha certeza de que meus pais iam sentar na calçada e eu ia poder ficar lá olhando as outras crianças brincarem. Nunca gostei de participar, sempre gostei de observar, mas tinha dias que faltava alguém no time de carimba e eu ia jogar um pouco.
Hoje, a semana passa rapidamente, os anos então nem se fala. E olha só, eu mesma já tenho vinte anos. Dez anos mais cedo, eu sentava na calçada pra ver o tempo passar, me imaginava dali dez anos. Lembro bem que queria já estar morando sozinha, formada (sem noção dos anos que levava pra se formar na faculdade), rica e independente.
Criança imagina cada coisa doida. Esses sonhos eu ainda tenho, mas mudaram os prazos. Formada só daqui dois anos. Morando sozinha só daqui 9 ou 10 anos e rica daqui uns 15 anos, quem sabe.
Bons tempos em que a única preocupação da semana era a de torcer pros meus pais sentarem na calçada depois do jantar. Hoje as semanas ainda passam rápido, mas a preocupação maior é que a sexta chegue logo pra eu poder dormir mais ou simplesmente pra ficar em casa e fazer tudo aquilo que não deu tempo de fazer durante a semana.
Ainda sento na calçada e me imagino daqui dez anos. Quando esse tempo passar, talvez eu volte pra contar como tudo está. Como o mundo mudou, como meus sonhos se modificaram, quantas vezes eu errei, quantas vezes eu acertei. O que mais eu quero.





- Jessica

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vende-se preguiça

- Com licença, moço, me chamo Rafa e gostaria de fazer um depósito de preguiça.
- Rafa, não fazemos esse tipo de depósito.
- Mas aqui não é um banco?
- É sim, mas só depositamos dinheiro.
- E onde eu posso trocar preguiça por dinheiro?
- Creio que em canto nenhum, querida.
- Como assim, moço? Tá querendo me dizer que eu vou ter que ficar com essa preguiça pra sempre?
- Se você fizer exercícios físicos talvez ela vá embora.
- Tá me chamando de gorda?
- Não, querida. É que exercício faz bem pra saúde e aumenta a disposição. Você pode praticar um esporte. É divertido na sua idade.
- Ah, mas eu tenho muita preguiça pra começar a fazer exercício físico e mesmo não tenho dinheiro pra praticar esportes. Se eu pudesse vender, sabe? Eu até que iria, mas você disse que não dá. Você tem certeza de que não há um banco que aceite depósito de preguiça?
- Tenho sim. Não há um banco no mundo que aceite.
- Ok, obrigada.
 Saiu de lá pensando que aquele homem só poderia estar louco. Sua mãe lhe disse que tinha preguiça pra dar e vender. Como ele não poderia ter aceitado sua preguiça? Tentou em outros bancos, mas a resposta era sempre a mesma.
Voltou pra casa triste e com a sensação de que levava mais do que seu peso. Peso demais pra doce menina de sete anos. Chegou e entrou com os ombros caídos, cabeça baixa e uma tristeza que parecia ser profunda. Afundou no sofá e cruzou os braços. Estava transtornada por não poder trocar preguiça por dinheiro. Pensou que os adultos eram uns bobos e que não valorizavam o que tinham dentro de si. Afinal, pensava ela, pra quê servia tanta preguiça se ela não poderia vender? Antes de começar a fazer beiço para chorar, viu sua mãe e foi logo contando:
- Mamãe, fui ao banco hoje.
- Você foi ao banco com quem, minha filha? O que você foi fazer lá, querida?
- Sozinha. Queria vender minha preguiça. Você disse que eu tinha preguiça para dar e vender. Fui tentar vender, mas o moço não quis comprar.
 A mãe sorriu e chamou a menina pra sentar. A garotinha não gostou nada do sorriso que a mãe deu. Sentiu-se enganada, mas foi conversar com a mãe. A mulher, já com seus primeiros cabelos brancos, explicou pacientemente a menina que o que ela falou era apenas uma expressão enquanto passava carinhosamente a mão em seus cabelos lisos. Tudo aquilo não tinha exatamente aquele sentido. Ela apenas quis dizer que a menina era bem preguiçosa, tanto que se pudesse, daria e venderia sua preguiça.
Ainda chateada a menina conformou-se com a resposta da mãe. Foi para o quarto. Pegou seu caderninho de segredos e lições. Fez mais uma anotação: “Lembrar que quando for adulta, dizer as coisas exatamente como devem ser ditas, sem ‘expressões’.”


- Jessica